26 de dezembro de 2010

estive há dez minutos atrás na varanda do meu quinto andar a observar a cúpula invisivel entre o céu e o enorme lego de betão e a senti-me um inquilino passageiro desta pensão de duas estrelas perdida na imensa cidade negra a que damos o nome de universo. curiosamente parece que é o único sitio que temos para passar a longa noite que nos espera e é aí que eu saiu para apanhar a frequência. como que a comer um ponto e a cagar um verso. no meu prisma, a encaixar, provavelmente no de outros feito um filósofo de merda, mas a vida é isso mesmo, um monte de gente a fazer de conta que se entende e ninguém sabe dizer o que viveu. por isso nos pedem que caminhemos alegres para o precipicio sem questionar. porque estaremos sempre longe. mas longe rapidamente fica perto e perto rapidamente passa por nós. eu não quero mandar-te para baixo. mas eu sei que me entendes. tu também tens medo de morrer, toda a gente tem. só que normalmente inventamos montes de problemas para nos convencermos que estamos ocupados a resolver uma situação importante quando não tem importância nenhuma. entretanto o tapete rola e nós irritamo-nos com uma inevitabilidade e nos nossos sonhos dizemos 'torna-me imortal, torna-me imortal, eu não vou aguentar deixar de existir!' e é ai que eu entro para sair da frequência. seduzir-te com os meus sonhos, tu não ves como eu empreendo? e como eu e mais um milhão de sonhadores leva com ele muitos braços de outros, acéfalos, na lotaria dos ideais, descrentes beijando o número do bilhete. mas devo dizer-te que a viagem é tua e não quero empurrar-te á força para a rua. se eu falhar vou passar de deus a carrasco, embalsamado e metido dentro de um frasco para te lembrares da mentira. mas a verdade, é que ganhamos sempre.

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